Gestão de dados
A importância do QA/QC na mineração
Por que o controle de qualidade é fundamental para a confiabilidade de estimativas de recursos.
StockWork Analytics · Outubro de 2026 · 7 min de leitura
Toda estimativa de recursos parte de uma suposição: o teor no banco de dados representa o teor da rocha. O QA/QC é o conjunto de procedimentos que permite demonstrar isso. Sem ele, o recurso pode até estar certo, mas ninguém consegue provar.
Garantia e controle não são a mesma coisa
Garantia de qualidade (QA) são os procedimentos definidos antes da coleta para evitar o erro: protocolos de amostragem, preparo e análise. Controle de qualidade (QC) é o monitoramento que detecta o erro quando ele acontece: amostras de controle inseridas no fluxo e avaliadas a cada lote (Abzalov, 2008).
O tema ganhou peso regulatório depois da fraude da Bre-X, em 1997. A resposta da bolsa de Toronto e da comissão de valores de Ontário foi o relatório Setting New Standards (TSE/OSC, 1999), base do NI 43-101. Hoje, JORC e NI 43-101 exigem que o relatório descreva os procedimentos de controle e os resultados obtidos (JORC, 2012; CSA, 2011).
Onde o erro nasce
A teoria da amostragem de Pierre Gy mostra que a maior parte do erro total vem da amostragem e da preparação, não da análise química (Gy, 1982; Pitard, 1993). Por isso os controles precisam cobrir toda a cadeia, e não só o laboratório.

Exatidão: padrões e brancos
Materiais de referência certificados (CRM) têm teor conhecido. Plotados em ordem de análise, mostram viés e deriva do laboratório. O critério usual reprova o lote quando um resultado ultrapassa três desvios padrão, ou quando dois resultados consecutivos passam de dois desvios no mesmo lado. Brancos monitoram contaminação entre amostras.
Precisão: duplicatas
Duplicatas medem a repetibilidade em cada etapa: campo, rejeito de britagem e polpa. Stanley e Lawie (2007) recomendam o coeficiente de variação médio como medida de erro relativo, por ser consistente entre conjuntos de dados. Abzalov (2008) apresenta níveis de referência por tipo de depósito e de duplicata. O método de Thompson e Howarth (1978) segue útil para descrever a precisão em função do teor.
Um programa mínimo
| Controle | O que mede | Taxa usual | Critério de reprovação típico |
|---|---|---|---|
| CRM (padrão) | Exatidão, viés, deriva | ≈ 5% | Fora de ±3 DP, ou dois seguidos além de ±2 DP |
| Branco grosso | Contaminação no preparo | 2–5% | Acima de um múltiplo definido do limite de detecção |
| Duplicata de campo | Erro total de amostragem | ≈ 5% | Proporção de pares fora do limite relativo |
| Duplicata de polpa | Precisão analítica | ≈ 5% | CV médio acima da referência do depósito |
| Laboratório secundário | Viés entre laboratórios | ≈ 5% das polpas | Diferença sistemática significativa |
Taxas indicativas da prática da indústria. O programa deve ser dimensionado ao tipo de depósito e documentado antes da campanha (Abzalov, 2008; CIM, 2018).
Três falhas recorrentes
- Avaliar só no fim da campanha. O controle perde o sentido se o lote reprovado já entrou no banco. A avaliação é por lote, com reanálise antes da importação.
- CRM fora da faixa de teor. Um padrão de alto teor não diz nada sobre a exatidão perto do teor de corte. São necessários pelo menos três níveis: próximo ao corte, à média e ao alto teor.
- Controles identificáveis. Se o laboratório reconhece o padrão, o controle deixa de ser cego.
O efeito na classificação
A qualidade dos dados analíticos é critério explícito do Table 1 e pesa na classificação do recurso (JORC, 2012). Campanhas antigas sem QA/QC podem ser recuperadas com reamostragem e furos gêmeos, mas até lá o material tende a permanecer em categoria de menor confiança. O custo dos controles, da ordem de 15 a 20% a mais de análises, é pequeno diante do custo de refazer uma campanha.
Referências
- Abzalov, M. (2008). Quality control of assay data: a review of procedures for measuring and monitoring precision and accuracy. Exploration and Mining Geology, 17(3–4), 131–144. doi
- Abzalov, M. (2016). Applied Mining Geology. Springer. Cap. 10: Quality Control and Assurance (QAQC). Springer
- Stanley, C.R., Lawie, D. (2007). Average relative error in geochemical determinations: clarification, calculation, and a plea for consistency. Exploration and Mining Geology, 16(3–4), 267–275. GeoScienceWorld
- Thompson, M., Howarth, R.J. (1978). A new approach to the estimation of analytical precision. Journal of Geochemical Exploration, 9(1), 23–30. doi
- Gy, P.M. (1982). Sampling of Particulate Materials: Theory and Practice. 2. ed. Elsevier.
- Pitard, F.F. (1993). Pierre Gy's Sampling Theory and Sampling Practice. 2. ed. CRC Press.
- CIM (2018). CIM Mineral Exploration Best Practice Guidelines. Canadian Institute of Mining, Metallurgy and Petroleum. mrmr.cim.org
- TSE/OSC Mining Standards Task Force (1999). Setting New Standards: Recommendations for Public Mineral Exploration and Mining Companies. Toronto Stock Exchange e Ontario Securities Commission.
- JORC (2012). The JORC Code, 2012 Edition. Table 1, Seção 1. jorc.org
- CSA (2011). National Instrument 43-101: Standards of Disclosure for Mineral Projects e Form 43-101F1. bcsc.bc.ca
Figuras marcadas como exemplo ilustrativo usam dados simulados.