Padrões internacionais
Como estruturar dados para JORC / NI 43-101
Um guia prático sobre os requisitos de dados para relatórios de recursos minerais nos padrões da família CRIRSCO.
StockWork Analytics · Outubro de 2026 · 8 min de leitura
Um relatório de recursos é tão confiável quanto o banco de dados que o sustenta. Os códigos internacionais não exigem um software nem um formato de arquivo. Exigem que o profissional responsável consiga demonstrar, critério por critério, como cada dado foi coletado, verificado e usado.
Uma família de códigos com os mesmos princípios
JORC (Austrália), NI 43-101 com as definições do CIM (Canadá), SAMREC, PERC, SME e o Guia CBRR (Brasil) seguem o modelo internacional do CRIRSCO, que hoje reúne 16 organizações nacionais de relato (CRIRSCO, 2024). Todos se apoiam em três princípios: transparência, materialidade e competência (JORC, 2012).
No Brasil, a Resolução ANM nº 94/2022 instituiu o Sistema Brasileiro de Recursos e Reservas Minerais e alinhou a classificação oficial aos padrões CRIRSCO e ao Guia CBRR (ANM, 2022; CBRR, 2022). Na prática, o banco de dados preparado para um relatório JORC ou NI 43-101 serve também ao regulador brasileiro.
A lógica da classificação
A classificação de recursos expressa confiança geológica. A conversão em reservas depende dos fatores modificadores. Dados fracos limitam a categoria: sem locação confiável, QA/QC documentado e densidade medida, o recurso dificilmente sai de Inferido, qualquer que seja o método de estimativa.
O que o banco de dados precisa conter
A estrutura mínima é relacional e gira em torno da tabela de boca de furo. Cada tabela responde a perguntas que o relatório terá de responder.
- Locação: coordenadas com sistema de referência e método de levantamento declarados (GNSS RTK, estação total, GPS de mão).
- Desvio: medidas de azimute e mergulho ao longo do furo, com instrumento identificado.
- Intervalos: sem sobreposição, sem lacunas não explicadas e sem ultrapassar a profundidade final.
- Análises: laboratório, método, limite de detecção e número do certificado para cada resultado. O valor no banco deve ser rastreável até o arquivo original do laboratório.
- Densidade: medida por litologia e tipo de material, não assumida.
- QA/QC: padrões, brancos e duplicatas identificados e avaliados por lote.
- Trilha de auditoria: registro de quem alterou o quê, quando e por quê.

Do dado ao Table 1
A Seção 1 do Table 1 do JORC lista os critérios sobre técnicas de amostragem e dados, sob a regra "se não, por que não": o que não for reportado precisa ser justificado (JORC, 2012). No NI 43-101, a pessoa qualificada deve descrever a verificação de dados que realizou e fazer a inspeção pessoal do projeto (CSA, 2011). A tabela abaixo relaciona cada critério à evidência que o banco deve fornecer.
| Critério (JORC Table 1, Seção 1) | Evidência no banco de dados |
|---|---|
| Técnicas de amostragem e de sondagem | Tipo de furo, diâmetro, método de amostragem por intervalo |
| Recuperação da amostra | Recuperação medida por manobra ou intervalo |
| Descrição geológica (logging) | Códigos padronizados, geólogo responsável, fotos de caixas |
| Subamostragem e preparação | Protocolo de preparo, massas, duplicatas de rejeito |
| Qualidade dos dados analíticos | Método, laboratório, padrões, brancos, duplicatas |
| Verificação de amostragem e análises | Furos gêmeos, reanálises, conferência com certificados |
| Locação dos pontos | Método de levantamento, sistema de referência, topografia |
| Espaçamento e distribuição | Malha por domínio, compositagem aplicada |
| Orientação em relação à geologia | Desvios e medidas estruturais, espessura real |
| Segurança das amostras | Cadeia de custódia, lacres, registros de envio |
| Auditorias e revisões | Relatórios de auditoria interna e externa |
O que está mudando
Os dois códigos mais usados estão em revisão. O JORC colocou uma minuta em consulta em 2024 e trabalha na versão provisória de 2026, com mais orientação sobre ESG, risco e reconciliação. No Canadá, os reguladores propuseram em junho de 2025 a substituição do NI 43-101; a consulta pública terminou em outubro de 2025 e a versão de 2011 segue em vigor até a adoção do novo texto (JORC, 2026; CSA, 2025; CIM Magazine, 2025).
A direção das revisões é a mesma: mais transparência sobre a origem dos dados. Quem estrutura o banco hoje com rastreabilidade completa não precisará refazer o trabalho quando os novos textos entrarem em vigor.

Referências
- JORC (2012). Australasian Code for Reporting of Exploration Results, Mineral Resources and Ore Reserves (The JORC Code). Joint Ore Reserves Committee. jorc.org
- JORC (2026). JORC Code Update. Joint Ore Reserves Committee. Acesso em out. 2026. jorc.org
- CSA (2011). National Instrument 43-101: Standards of Disclosure for Mineral Projects, Companion Policy 43-101CP e Form 43-101F1. Canadian Securities Administrators. bcsc.bc.ca
- CSA (2025). CSA proposes amendments to modernize and streamline mining disclosure standards. 12 jun. 2025. securities-administrators.ca
- CIM Magazine (2025). NI 43-101 overhaul advances. magazine.cim.org
- CIM (2014). CIM Definition Standards for Mineral Resources & Mineral Reserves. Canadian Institute of Mining, Metallurgy and Petroleum. mrmr.cim.org
- CRIRSCO (2024). International Reporting Template for the Public Reporting of Exploration Targets, Exploration Results, Mineral Resources and Mineral Reserves. Atualização de junho de 2024. crirsco.com
- CBRR (2022). Guia CBRR para Declaração de Informações de Exploração, Recursos Minerais e Reservas Minerais. Comissão Brasileira de Recursos e Reservas. PDF
- ANM (2022). Resolução nº 94, de 7 de fevereiro de 2022. Agência Nacional de Mineração. gov.br/anm
Figuras marcadas como exemplo ilustrativo usam dados simulados.